Gratidão é o car@#ho

Isso é muito mais comum do que parece. Mas, não significa que é ingratidão. É apenas falta de terapia, e vamos explicar o porquê. 


A terapia pode e deve envolver a Psicoeducação, ela é quem nos faz ver o copo que estava meio vazio como meio cheio. Nosso cérebro trabalha com previsões baseadas nas nossas experiências, se elas mostram que devemos nos preocupar com o copo meio vazio, ou com aquilo que não temos, é exatamente isso que vamos fazer. Afinal, foi para isso que fomos treinados.


A terapia vem trazer um leque maior de opções e com a sua ajuda, conseguimos perceber que temos o que precisamos. Então, começamos a ser gratos por

aquilo que temos, ao invés de nos preocupar com aquilo que perdemos.


Existem muitas práticas de gratidão que prometem ver o mundo com outros olhos, e isso até pode funcionar, mas na maioria das vezes não. Vamos explicar o que acontece quando funciona.


Como eu disse, a Psicoeducação nos faz ver o mundo de uma outra perspectiva. Sempre partimos do princípio que a pessoa tem uma visão, limitada sobre determinado aspecto, que nesse caso é a gratidão. Ela simplesmente não consegue

ver as coisas de outra maneira, e acaba passando a ideia de que é ingrata por não

perceber o que ela já tem. Mas, tudo isso tem haver com as experiências pelas quais a pessoa passou. O cérebro começa a fazer previsões, e normalmente essas previsões acontecem de forma errada.


Vamos imaginar alguém que passou por dificuldades financeiras na infância, talvez tenha até passado fome em algum momento. Essa pessoa cresceu ouvindo lamentações de adultos a sua volta, foi educada a pensar que não existe o suficiente para todo mundo, se eu ganhar talvez você tenha que perder.


Agora, vamos fazer algumas previsões do que pode acontecer com essa criança ao se tornar um adulto. Talvez ela tenha continuado extremamente pobre pelo resto da vida ou talvez tenha acontecido alguma coisa, em determinado momento, que fez com que ela enxergasse a possibilidade de ganhar dinheiro, e assim aconteceu. Ela ganhou muito dinheiro.


Após ter ganho dinheiro ela vai chegar em outras encruzilhadas da vida que a

farão tomar uma decisão. Vamos imaginar aqui, que essa pessoa se tornou muito

mesquinha, avarenta. Dá mais valor para o próprio dinheiro do que para a sua família.


Ela é grata pelo dinheiro que conseguiu, mas assume que a responsabilidade por ter

conseguido é apenas sua. Então, não precisa agradecer por ter dinheiro, afinal foi mérito próprio. Mas, na vida pessoal as coisas não vão tão bem assim, o relacionamento conjugal e com os filhos é bem difícil. Essa pessoa reclama da vida familiar, não o tempo todo, mas para alguns amigos. Esses amigos, por sua vez, pensam da seguinte forma “Caramba, o fulano(a) tem tudo, e reclama da vida. Quanta ingratidão”.


Os amigos viveram experiências diferentes e não entendem como essa pessoa pode reclamar de alguma coisa tendo tudo. Eles vão fazer os seus julgamentos baseados nas suas experiências.


E sim, nós somos julgados o tempo todo. Mas voltando ao nosso ingrato, digo

indivíduo, talvez ele não consiga enxergar que ter um relacionamento familiar bom

pode depender de um esforço maior por parte dele ou dela mesmo. E talvez isso ocorra porque ele ou ela tenha conseguido ganhar dinheiro. E com isso aprendeu que ganhar dinheiro só depende de cada pessoa. Mas quando criança, tinha uma estrutura familiar ruim, e aprendeu que isso é culpa dos outros, que nada pode ser feito. E essa é a previsão do seu cérebro.


Mas eu disse que explicaria o porquê uma técnica de gratidão pode funcionar com

algumas pessoas e com outras não. Quando utilizamos uma técnica simples de gratidão, dependendo de tudo o que já aconteceu com a gente, pode ser o suficiente para que o nosso cérebro comece a gerar novas previsões, ou não.


Vamos chamar o nosso sujeito novamente, vamos imaginar agora que ele contratou um coach familiar para entender o porquê a família dele dá tanto trabalho. Esse profissional não conhece nada sobre terapia ou psicologia, e sugere que o seu cliente agradeça todos os dias pela sua família.


Nos primeiros dias esse ritual é estranho, afinal ele não se sente realmente grato por

isso, apesar de amar muito a sua família. Mas, depois de alguns dias ele ou ela percebe que realmente pode fazer mais para melhorar o ambiente familiar, e passa a se sentir grato de verdade por poder entender isso.


Essa pessoa acabou de passar por um processo terapêutico, mesmo que ninguém dos envolvidos saiba disso. O que eles acabaram de fazer foi aumentar as possibilidades de previsões que o cérebro é capaz de realizar. O copo meio vazio, agora começa ser visto como um copo meio cheio. E isso pode acontecer em qualquer momento, esse estalo, essa virada de chave não precisa acontecer dentro de um consultório.


Mas, então por que isso não acontece com todo mundo?


A resposta aqui é simples, erro de previsão. Talvez essa técnica de gratidão não se encaixe dentro das possibilidades de previsão do indivíduo, e ele ou ela precise de um processo terapêutico mais amplo. Com um profissional que realize terapia. E talvez essa virada de chave não aconteça nem mesmo dentro do consultório. Mas por causa da terapia, ela pode vir em algum outro momento, como se fosse uma inspiração ou um momento mágico. Em uma fila de banco, assistindo um filme, em uma conversa e bar.


Não importa onde e quando vem, o que importa é que tudo o que essa pessoa viveu

aumentou as suas possibilidades. Com certeza a terapia ajudou, mas não fez tudo

sozinha.



Por Andrei Schwanz